Dívidas enormes com Carmen Miranda

João Carlos Pereira

 

José Soares é um nome tão comum que, aparecendo num obituário, dificilmente chamaria atenção do leitor desatento. Sobretudo se for um José Soares de 92 anos, que nem morava no Brasil. Pois essa criatura, morta há mais ou menos uma semana,  no México, enquanto dormia, vitimado por um AVC, foi um dos homens mais famosos do Brasil, na área musical.

Para as novas gerações, era o célebre “famoso quem?”, mas seu nome, ou melhor, seu apelido, ficou na história da MPB como o último músico que trabalhou com Carmen Miranda. Para ela, para o “Bando da Lua”, para os “Namorados da Lua” e para os “Anjos do Inferno”, grupos em que atuou, José Soares era apenas o Russo, ou melhor, o Russinho.

De todos os colegas de trabalho de Carmen, Russo foi o mais próximo. Tão próximo que, uma vez, sentou um murro na cara de um pilantra chamado David Sebastian, o marido da cantora. Diferente do que qualquer outra mulher fatia,  em vez de brigar com ele, Carmen elogiou a força de  sua “direita”. A “pequena notável” comeu o pão que o diabo amassou e era servido quente por esse marido. Até hoje penso que ela  morreu de tanto trabalhar, para honrar os contratos que conseguia.

Carmen nasceu Maria do Carmo. Os olhos verdes, o sorriso largo nos lábios vermelhos, iluminavam seu rosto. A personagem que inventou para si mesma nada tinha a ver com a origem portuguesa. A “baianidade” da artista era a melhor forma de expressar sua alma brasileira. Sobre uns sapatos de plataforma gigantesca, que transformavam a mulher de 1.52 num mulherão de  mais de 1.70, dançava como ninguém, equilibrando um turbante que parecia uma fruteira. Aprendeu a sambar sobre mexendo as mãozinhas de um jeito só dela. As mesmas mãozinhas que, um dia, afundaram no cimento fresco da calçada da fama, em Hollywood, para deixar registrada a passagem gloriosa pelo cinema americana.

Por muitos anos, Carmen foi o maior salário da America. Vivia numa mansão em Beverly Hills e tinha um marido que era uma peste. Sabe Deus quantas vezes pensou em separar-se dele, mas um detalhe que pouca gente sabe que é, sendo catolicíssima, não admitia, nem para ela mesma, a possibilidade de desonrar o sacramento do matrimônio com um divórcio.

Enquanto brilhava por lá, era difamada aqui. Diziam que estava americanizada, que não ligava mais para o Brasil, essas besteiras de gente frustrada, para quem o sucesso alheio soa como ofensa pessoal. Carmen estava muito triste com isso. Veio buscar o colo da família e dos amigos no Rio. Recuperada, voltou para os Estados Unidos, onde fazia dois shows por noite.  Antes de entrar em cena, tomava relaxante para poder dormir e, ao ser despertada, precisava de um estimulante para manter os olhos abertos. Encerrado o show, engolia outro calmante e, depois, outro relaxante. Quando chegava em casa, necessitava de mais um calmante para dormir. Aliado a isso, havia um casamento infeliz. No dia 5 de agosto de 55, Carmen se apresentou na televisão, no show de Dimmy Durant. Saiu de cena de costas, sambando, dando adeus para o público. Na verdade, era uma despedida da vida. Às 11h05 da manhã, um infarto fulminante a levou.

O corpo de Carmen foi trazido para o Brasil e a primeira parada em sua terra adotiva aconteceu na escala em Belém, para reabastecimento. O Governo do Estado fez uma homenagem no avião. Seu enterro gerou uma comoção nunca vista. Alguns diriam, um Círio. Os mais antigos, comparariam ao do general Magalhães Barata, quatro anos depois.

Russinho assistiu a tudo isso, menos ao traslado do corpo. Poderia ter sido o biógrafo mais fiel de Carmen. Por muitos anos, desejou que a avenida Atlântica, no Rio, fosse chamada de avenida “Carmen Miranda”. Teria mais a ver. Igualmente sonhou com uma estátua em sua homenagem.  Recorreu, inutilmente, a Lula, a Dilma e a Temer. Suas cartas nunca tiveram resposta. Deveria ter pedido ao Governador ou a Prefeito do Rio. Talvez fosse o caminho mais curto. O Rio exibe estátua do Chacrinha, segurando um bacalhau, de Ibrahin Sued, na porta do Copacabana Palace, de Dorival Caymmi, de Tom Jobim e de Drummond. Falta a da Carmen.

Com a morte de Russinho, morre também a memória do último de seus amigos mais próximos da “pequena notável”. Carmen sobrevive, mas sabe Deus até quando, porque a memória da cultura brasileira não gênero de primeira necessidade. Nem de segunda. Talvez nem terceira. O Brasil é um país desmemoriado.

Em Belém, temos uma estátua do Mapinguari, no Bosque; de Jesus Cristo sobre as ondas, na praça do Pescador e um busto de Magalhães Barata, todos assinados por João Pinto e mal cuidados. Há uma estátua em tamanho natural do professor João Paulo Mendes, no Cesupa; um medalhão do maestro Waldemar Henrique, na praça que leva seu nome, abaixo de uma família de personagens lendárias, e a linda homenagem a Ruy Barata, em bronze, no Parque da Residência. E só.

Nossa dívida com nossos queridos é bem maior que a dos cariocas.

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