Brasileis, a Epopeia Nacional

O que é uma epopeia? No dicionário, epopeia quer dizer “poema amplo cuja narração descreve e relata ações heroicas ou acontecimentos grandiosos”. A obra genial “Os Lusíadas”, de Camões, publicada em 1572, é uma epopeia portuguesa, contando em versos a história sobre o caminho de Vasco da Gama às Índias, mas que não fala no descobrimento do nosso país. Contudo, o que poucos sabem é que o Brasil tem uma epopeia nacional, intitulada “Brasileis”, escrita pelo jurista e poeta Augusto Meira, em 1923, suprindo este vácuo, contando a história da descoberta do Brasil até a guerra do Paraguai, publicada em três edições: a primeira, pelo Instituto Lauro Sodré; a segunda, pelo Instituto Nacional do Livro e a terceira, pela editora Pongetti, no Rio de Janeiro. “Brasileis”, escrito em versos camonianos, é dividido em dois tomos, num total de 300 páginas, do canto I ao canto XIV (maior que “Os Lusíadas”, que tem X).

O autor da obra, senador Augusto Meira, meu bisavô, nasceu no Rio Grande do Norte, na cidade de Ceará-Mirim, no engenho “Diamante”. Seu pai, Olyntho José Meira, formado em Olinda no ano de 1851, foi presidente das Províncias do Pará (1861) e Rio Grande do Norte (1863-1866). Seus estudos primários e secundários foram realizados sob a responsabilidade de seu próprio pai. Ingressou na Faculdade de Direito do Recife, onde foi amigo de Clóvis Bevilácqua (e vizinho de prédio), completando o curso com grande distinção, o que lhe valeu uma viagem para a Europa, como prêmio. Tinha, desde jovem, o talento para a poesia, com preferência para o soneto, no estilo lírico e romântico. Casou-se com Anésia de Bastos e teve nove filhos, nesta ordem: Decélia, Octávio, Eynar, Dióris, Cécil, Augusto (Meira Filho), Clóvis, Silvio e Ruy. Foi professor catedrático de direito civil e criminal da Faculdade de Direito do Pará (de onde foi diretor), na qual ingressou através de concurso realizado em 1908. Como político, elegeu-se deputado estadual, tendo várias legislaturas (de 1912 a 1930). Foi também senador da República (de 1947 a 1951) e deputado federal (de 1951 a 1955). Foi membro fundador da Academia Paraense de Letras, na cadeira número 33, cujo patrono é Olyntho José Meira, seu pai, bem como também foi fundador do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. Em 1965, foi inaugurado pelo governador Jarbas Passarinho, em Belém, o Colégio Estadual “Augusto Meira”, com a presença do presidente Castelo Branco. Seu nome está como patrono perpétuo da cadeira 05 da Academia Brasileira de Letras Jurídicas, ocupada por seu filho, Silvio, e, posteriormente, pela jurista Ada Pellegrini Grinover, recém falecida.

Vamos a alguns belos trechos de Brasileis, atualizando a escrita das palavras: “As armas cantarei, troféus e heróis / Que, em rude esforço, ousado e sobre-humano / Dilataram, à luz de tanto sóis / Toda a glória do gênio lusitano! / Direi a guerra, o sol, os arrebóis / As vastidões da selva e do oceano / Direi na lyra de ouro, sobranceira / Toda a vida da gente brasileira”; Espadanando em luz deslumbradora / Desta terra distante que escondia / A treva e o céu, e a vaga aterradora / Direi, da Pátria, os feitos e esplendores / Mais alto que Camões e os seus lavores!…”; “Então falou Cabral piedoso e grande / Oh, arvore de Cristo bem-amada / Que, pelo mundo inteiro, inteiro o mande / Onde me atira o mar, onde a nortada?! / Se o mar sem termo, mais e mais se expande / Pela noite infinita e constelada?! / E, beijava, entre as mãos, um símbolo de ouro / Da cruz que enchia o céu como um tesouro”; “Deixai que sobre vós leve o meu canto / Meu amor, bem querer mais incendido / Tudo vos dê do que eu houver mais santo / Cheio de susto, imoto e comovido / Vossas armas eu rego-as com meu pranto / Preito profundo ao vosso nome erguido / Patriarcas da Pátria sobre humanos / Grandes vultos de grandes lusitanos…”; “Já tinhas certo, altiva, em Tordesilhas / Assegurado, ovante, o teu direito / Direito que é trilho que tu trilhas / Velas ao mar, aos maus pondo em respeito / Podes, enfim, de novas maravilhas / Adormecer de glorias no teu leito / Arrancando o Brasil ao mar profundo / Tu é que destes o Novo Mundo ao mundo!”; “Meu canto o deixo aos séculos futuros / Nem os astros no céu são mais seguros”.

Ninguém menos que Clóvis Bevilacqua, emérito jurista e fundador da Academia Brasileira de Letras, na obra “História da Faculdade de Direito do Recife”, volume 1, p. 365, assim registra: “Augusto Meira – Professor da Faculdade de Direito do Pará, pensador e poeta. Sua obra capital é “Brasileis”, epopeia nacional brasileira, em quatorze cantos. Tomando por modelo “Os Lusíadas”, quanto à forma e verso e não quanto ao pensamento, que, em quatrocentos anos a mentalidade humana galgou cimos não sonhados pelos quinhentistas, Augusto Meira descreve a vida heroica do Brasil, desde a descoberta até a guerra do Paraguai, natural coroamento da evolução nacional. Há grandeza de concepção, fulgor de imagens novas, elevação de pensamento nesse livro, no qual o amor à pátria empresta à exaltação poética riqueza e de emoção não comum em obras semelhantes”. Brasileis deveria ser obra obrigatória em todas as escolas do país, tal qual “Os Lusíadas” o é, em Portugal.  Augusto Meira faleceu em 21 de março de 1964, completamente lúcido, aos 91 anos. Como ele mesmo escreveu, “A Pátria deixarei que, no meu verso / Irmão da duração, encha o universo!”

André Malcher Meira, Presidente do ISM – Instituto Silvio Meira. Membro efetivo do IAB Nacional. Orador Oficial do IAP – Instituto dos Advogados do Pará. Membro da Academia Paraense de Letras Jurídicas. Professor Adjunto da Unama. Sócio proprietário da Malcher Meira Advogados Associados. E-mail: malchermeira@hotmail.com

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